“Medo e Ousadia: O cotidiano do Professor” (Paz e Terra, 1986, 224 páginas), dos professores e teóricos da educação Paulo Freire e Ira Shor, apresenta uma análise das situações enfrentadas principalmente por professores que buscam atuar como educadores libertadores motivados pelo sonho da transformação social.
Ainda assim, para além de qualquer posicionamento político ou opinião sobre a pedagogia da libertação, esta obra reúne preleções intrigantes e desconfortáveis se considerado a época em que foi escrita e para as gerações com as quais pretendeu dialogar.
Construída com uma abordagem dialógica, as inferências realizadas partem das experiências educativas concretas analisadas sob a ótica da perspectiva da transformação, e não da continuidade.
Ao mesmo tempo em que cada um dos autores relata suas próprias experiências na construção de uma outra pedagogia, a obra vai permitindo, conforme avança na discussão dos temas, que o leitor atento as diferentes situações no universo escolar possa, ele mesmo, aferir a relevância de se repensar situações pedagógicas as quais a única solução pareça ser o autoritarismo, o adestramento e o “diálogo” unilateral.
De intrigante em “Medo e Ousadia” há a perspectiva entusiasmadamente otimista de não sucumbir a uma época abertamente marcada por uma reação conservadora no plano das ideias políticas, sociais e econômicas. Se há uma década no século passado, em que a doutrinal liberal e o sistema capitalista se apresentaram como a alternativa a alternativa, foram os anos oitenta, marcado que estava tanto pelo “fracasso” das concepções socialistas quanto em outra maneira possível de se organizar o mundo.
De desconfortável, a constatação em nada surpreendente de que as situações pedagógicas autoritárias e não dialógicas apresentadas e discutidas pelos autores, não avançaram em caminho inverso, ao longo de toda uma geração.
É bem possível que “Medo e Ousadia” tenha sido lido e discutido ao longo da década de 1990 por muitos educadores e educadoras. É bem provável que orientou muitas análises e iniciativas no sentido de transformar a relação ensino-aprendizagem ou, ao menos, a imagem autoritária com a qual a Escola não mais deveria se identificar.
Pois não é com pouca surpresa que se pode resgatar concepções da educação libertadora com as quais muitos “Freireanos” e “antifreireanos” parecem discordar ao concordar, em prejuízo e em larga depreciação às práticas libertadoras.
Entre estes, podemos citar a defesa incondicional da autoridade do educador e sua aversão ao autoritarismo. Para os autores, sua autoridade reside no fato mesmo de ser responsável por conduzir o processo de construção do conhecimento, na dialogicidade avessa às práticas conferencistas e no respeito à linguagem dos educandos.
Da mesma forma, Paulo Freire e Ira Shor demonstram a necessidade em se enfrentar os discursos da neutralidade política, que entre a direita é um recurso propositadamente articulado para distanciar a Escola das reflexões sobre a desigualdade social e, entre parte da esquerda, um discurso denunciatório incapaz de dialogar com as perspectivas políticas inconscientes ou manifestas, dos educandos.
Neste sentido, onde poderia se situar o educador inconformado com o papel tradicional e conservador que é atribuído à Educação pelo sistema de reprodução social capitalista? Como transitar entre o medo de não ser considerado um bom professor e a ousadia em superar as práticas pedagógicas que cada vez mais descolam a Educação Pública da realidade histórica de seu tempo? Como o Plano de Ação da Supervisão pode se apropriar das contribuições suscitadas nas análises desta obra?
Apressadamente, parece que “Medo e Ousadia” aponta para um dos caminhos possíveis com o qual se deve concomitantemente trafegar por entre outros caminhos: buscando a estrada da dialogicidade, o percurso da autonomia do ser do educando, as avenidas da educação humanizatória baseada na ética universal humana, o respeito pelas linguagens dos educandos e a compreensão de que sua realidade – a realidade social dos educandos – é ponto de partida e não de chegada para a educação libertadora.
Visitar e revisitar os conceitos do ensino libertador, buscando construir uma aplicabilidade nas diferentes situações pedagógicas que envolvem o universo escolar, pode significar, em si, um ato transformador e de reflexão sobre o que as teorias que pensam a Educação esperam sobre os papéis a serem desempenhados pela escola.
Um ato transformador, no sentido de desacomodar as relações pedagógicas baseadas na tradição – das dinâmicas de ensino para o adestramento às propostas liberais sobre o tipo de pessoa que se deve formar.
Um ato de reflexão, no sentido de contrapor o tipo de escola que o sistema capitalista quer ao modelo de escola que a sociedade da exclusão poderia alcançar.
Paulo César Machado, professor de história e pós-graduando em supervisão escolar.
Panorama Pós-moderno tem por objetivo apresentar artigos que tenham sido publicados por este autor em jornais ou que simplesmente sejam a expressão do desconforto causado por opiniões com estatuto de produção científica no campo da teoria social, da educação, da sociologia, da história, da economia.Visa também publicizar produção acadêmica resultante de pesquisa orientada em cursos já realizados ou em andamento.
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