Uma nova política por uma cidade melhor
Alcançamos, no Ocidente, um novo milênio completamente capaz de orientar com tenacidade e experiência a condução da coisa pública. Pelo menos este é o discurso da modernidade!
Isto significa dizer que, o Estado enquanto tal, atingiu o estágio que lhe permite promover ou emperrar a felicidade social como resultado das formas de encaminhamento de sua parcela de responsabilidade política. E que é preciso crer que pouco mais de 200 anos de ideário iluminista foi capaz de constituir um Estado plenamente cioso por suas responsabilidades para com o processo civilizatório, marca histórica, se quer crer, do progresso ético e moral humano.
Entretanto, não se quer aqui confrontar as diferentes formas de Estado ao longo da história ou em relação as diferentes culturas e suas civilizações. O que se quer é dissertar sobre a necessária capacidade política de “colonizar” o Estado, em seus poderes executivo e legislativo, pelo princípio da responsabilidade humana, na ética da solidariedade universal, na moral da dignidade social inalienável.
Mas é óbvio que, para tanto, é preciso não esquecer nem a complexidade nem o entrecruzamento das ações humanas nos diferentes níveis da realidade social: intrincando o aspecto local com o global, o político com o econômico, o cultural com o legal e ambiental e assim por diante, como uma colcha de retalhos constituída enquanto tal a partir de pedaços os quais, sozinhos, não nos dão um sentido de forma e essência.
Seria então (des)necessário evocar, nestes tempos de crise financeira global e_ no caso do Brasil_ recondução ou renovação dos executivos e legislativos municipais, a intransigente responsabilidade técnica e política daqueles que irão gerir e legislar ao nível dos municípios e a partir dos quais nossas vidas sociais encontram-se à mercê. Pelo menos é o que gostaríamos!
Para aqueles, cujo senso de realidade permite perceber o efeito das ações desses atores locais e globais sobre suas vidas, as palavras de ordem ou os princípios de ordem devem ser, suponha-se (!!!): o imperativo da capacitação técnica da administração pública, a inteligência política a serviço da comunidade, a responsabilidade política e econômica. Por alicerce, o compromisso irredutível e inarredável com o homem e a mulher comum, do dia-a-dia real, invisíveis, que não transitam pelas lojas e restaurantes que fazem de nossas vidas hedonistas, “normais”. Esses, andam por ruelas e habitações as quais não queremos ver, ou saber, ou ter que confrontar.
É preciso então que haja uma disposição sobre-humana (ou simplesmente humana) e um arejamento intelectual daqueles que, por quatro anos, contraíram o compromisso de fazer o que precisa ser feito, de mudar para melhor, de colocar o bem comum acima de suas próprias necessidades, de não sucumbir à fogueira das vaidades, de marcar a existência alheia e anônima com suas ações de gestor e legislador comprometidos, a saber, com a melhoria da qualidade de vida de todas as pessoas. De ser o diferencial na política.
Se a infra-estrutura municipal administrativa está aí, com seus funcionários públicos, seu orçamento, executivo e legislativo avalizado, e se há disposição política para gerir e legislar sem patrimonialismo e prevaricação, então que os mandatos delegados pelos cidadãos possam ser exercidos na lógica da ética da solidariedade universal, da moral da dignidade social inalienável, do princípio da responsabilidade humana.
É preciso crer, sem embriagar-se em frases de efeito, que só uma nova política por uma cidade melhor pode tornar menor a irresponsabilidade pública do poder político que, apesar do que fizer , nunca será suficiente em relação ao que, até hoje, nunca foi feito.
Paulo César Machado
Professor de história
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