quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

A POLITIZAÇÃO DA AGRESSIVIDADE NAS REDES SOCIAIS




Falar em politização da agressividade pode parecer estranho. Politização, é aceitável dizer, refere-se a uma suposta capacidade de compreensão dos acontecimentos políticos. Consequentemente, essa compreensão pode despertar uma vontade de participar ou influenciar as decisões que dizem respeito às questões próprias da dinâmica política. Grosso modo, as formas de participação se dão através da exposição de ideias, opiniões, interação em debates, pressão ou tentativa de convencimento daqueles que foram eleitos para representar correntes de opinião ou grupos de interesse, nas esferas executiva e legislativa. Claro que uma discussão filosófica ou sociológica sobre a temática, seria mais complexa e enriquecedora; mas, por hora, essas definições servem ao propósito ao qual se deseja chegar.
Sob o ponto de vista da história ocidental, esta politização é um desdobramento dos avanços dos meios de comunicação e entretenimento que marcaram tão fortemente a primeira metade do século XX, e se tornaram caracteres culturais de nossa civilização: a imprensa escrita, o cinema e o rádio. Acrescentemos outro elemento, impressionantemente forte e polarizado até o final da década de 1980, e que hoje, parece inegável, está marcado pelas mudanças culturais de uma irresistível modernidade líquida – a opinião pública. Essa opinião pública, por sua vez, já não pode mais ser confortavelmente defina pelos conceitos que a definiam no contexto do predomínio da razão iluminista. Dito isto, a premissa é a de que o avanço do acesso às informações, ideias, opiniões e visões de mundo contribuiu para o desenvolvimento de processos de politização. Esse desenvolvimento ocorreu concomitante a outro processo, a saber, o de fortalecimento da cidadania, em um contexto histórico ocidental muito particular.
Ocorre que com os avanços que tornaram o mundo uma aldeia global, parte das pessoas ditas politizadas, em um processo não dialógico de politização, marcado por todas as implicações de uma sociedade pós-moderna com interesses acirrados, encontraram na agressividade o elemento que por hora marca as disputas que envolvem seus protagonismos. Cabe destacar que esta parcela de protagonismo está despolitizada para o diálogo, convívio e construção de consensos. Estes são afrontados por medidas de força verbal. A ideologia da negação das outras ideologias e a incessante tentativa de reduzir a realidade social, histórica, política, cultural ao tamanho da própria opinião, é a tônica dessa politização da agressividade. Uma agressividade que parece não se importar de evoluir para uma politização da violência, fator que tem levado muitos a encontrar similidade com um dos aspectos que marcou o fascismo alemão do partido de Adolf Hitler: a violência como um argumento político.
No que se refere ao Brasil do último decênio, e a polarização política que se constituiu em torno das posições autoproclamadas de Direita e Esquerda, as redes sociais têm sido o veículo por excelência das manifestações politicamente agressivas. Ao que tudo indica, e apesar dos casos de agressividade verbal, estes, até o momento, não parecem suficientemente polarizados a ponto de provocarem choques violentos entre esses grupos. De fato, é possível perceber que as manifestações públicas antagônicas têm respeitado os espaços alheios de manifestação. Entretanto, é importante destacar o aumento considerável de ataques verbais racistas, homofóbicos, machistas, religiosos e xenófobos que têm se proliferado pela rede, notadamente pelo twitter e pelo facebook. Geralmente os autores desses ataques se utilizam de contas fakes, o que dificulta a identificação e responsabilização criminal.  Ao mesmo tempo, tudo leva a crer que o motor desses ataques é um prepotente sentimento de superioridade e impunidade. E aqui, o corte de classe social não seria suficiente para explicar o fenômeno.
Por fim, e apesar dessas manifestações de barbárie, deveríamos ser capazes de colocar questões fundamentais ao nosso desenvolvimento e avanço material. Estas questões dizem respeito ao que se tronou o Brasil atual dentro da ordem capitalista (com seus ainda existentes ciclos de crise). Mas também dizem respeito à corrupção enraizada na vida pública, ao judiciário desacreditado, à educação pública ineficiente, à saúde pública atrasada, ao sistema carcerário falido, à parcela da sociedade enriquecida incapaz de aceitar políticas de redistribuição de renda, e ao Estado, ineficiente e burocratizado, capaz de representar os interesses do poder econômico em prejuízo da nação e de grande parte da população.
Paulo César Machado
Professor de História e Supervisor pedagógico

RS, 03 de fev de 2017.

sábado, 28 de janeiro de 2017

O DISCURSO DA TÉCNICA OU A FALÁCIA DA NEUTRALIDADE

“Daí o tom de raiva, legítima raiva,  que envolve o meu discurso quando me refiro às injustiças a que são submetidos os esfarrapados do mundo. Daí o meu nenhum interesse de, não importa que ordem, assumir um ar de observador imparcial, objetivo,seguro dos fatos e dos acontecimentos. Em tempo algum pude ser um observador ‘acizentadamente’ imparcial, o que, porém, jamais me afastou de uma posição rigorosamente ética (Paulo Freire).”



A pós-modernidade tem se deparado com  um tipo de discurso (reativo) se legitimando ou buscando construir legitimidade principalmente a partir da década de 1990. Esse discurso ou vinha no corpo mesmo ou na esteira de uma outra concepção  que afirmava o fim da história ou o fim das ideologias.
Credenciado a partir do fim da União Soviética (URSS) e das esperanças (?) de um socialismo centrado na garantia do inalienável direito à felicidade humana - em oposição ao socialismo real - estava naturalmente determinado a conduzir, em uma visão rasa de determinismo linear, o ser humano, até que enfim, ao progresso e à felicidade.
No tocante às relações internacionais as nações atrasadas deveriam apenas seguir o exemplo e o modelo, agora, redentoramente ofertado pela cartilha infalível  dos países ricos. O resto era questão de tempo e o mundo, segundo esse discurso, estava pronto para ser feliz e usufruir as conquistas tecnológicas do capitalismo humanizado.
Essa visão de mundo, que como discurso se manifesta em um conjunto de práticas e ações que vão de noticiários comprometidos com a “veracidade dos fatos” às falas de personagens televisivos e cinematográficos construiu, ao longo de sua experiência em formatar e normatizar nossa opinião, uma série de desdobramentos ou de discursos transversais que cumprem o mesmo destino: fazer-nos acreditar que existe uma forma apenas  e apenas uma forma de ver o mundo, porque esta é a forma ou a maneira certa, incontestável e inconfundível.
Esse paradigma, esse discurso expressão do pensamento único e da naturalização de quase todas as situações sociais - que seria um equivalente ou desdobramento dos fenômenos naturais e não humanos - foi, em toda sua potência, o genitor do discurso da técnica, investido da falácia da neutralidade.
Hoje, nestes tempos de modernidade tardia, é essa a derradeira carta na manga do pensamento único, da versão transformada em realidade, da opinião transformada em verdade e de uma forma de verdade transformada em fato. É este o papel do discurso da técnica: colocar um ponto final na discussão social, política, cultural, econômica e humana. Há um jeito de se fazer às coisas e um jeito apenas, em que a condução técnica da “coisa” - principalmente da coisa pública - tem caráter de neutralidade.
Ser técnico, analisar tecnicamente é ser neutro e ponto final. É ser responsável com a “natureza das coisas”. Coisas que, naturalmente, têm cada uma o seu lugar, cada uma sua evolução.
Pois é esse discurso da neutralidade técnica travestida de eficácia para o bem comum, imparcial e infalível, que conduz nossa compreensão social pelos caminhos da superficialidade.
Para além das disputas teóricas iluministas e pós-iluministas, para além do reducionismo maniqueísta de nossa viciada percepção social, devemos incontinente  centrar  toda a força da racionalidade histórica em sua percepção.  Parece sensatamente aceitável que é tarefa de todas as pessoas preocupadas em tornar o Bem Comum um lugar de justiça e de garantia do inalienável direito à felicidade humana.
Não é possível aceitar que o velho capitalismo (em que tudo o que se produz destina-se às relações de mercado, que não tem por princípio atender às necessidades humanas) se utilize, incontestavelmente de um discurso que tem como principal tarefa nos deixar calados e estáticos.
Calados, para um falso mundo técnico e imparcial, a-histórico, que naturaliza a pobreza, a desgraça humana, a violência, a dor, a infelicidade.
Estáticos, para um mundo que, vale dizer, assiste a derrota das ideologias pela ideologia da neutralidade técnica.

Paulo César Machado

Professor de História e Supervisor Educacional