sábado, 21 de agosto de 2010

Revolução

Hoje é um bom dia para se iniciar uma revolução: comportamental, ética, ideológica, permanente. Que possamos fazer cada um a sua.Cada uma a mesma. Todas, uma só!!!
Abraços.

O DISCURSO DA TÉCNICA OU A FALÁCIA DA NEUTRALIDADE

“Daí o tom de raiva, legítima raiva, que envolve o meu discurso quando me refiro às injustiças a que são submetidos os esfarrapados do mundo. Daí o meu nenhum interesse de, não importa que ordem, assumir um ar de observador imparcial, objetivo,seguro dos fatos e dos acontecimentos. Em tempo algum pude ser um observador ‘acizentadamente’ imparcial, o que, porém, jamais me afastou de uma posição rigorosamente ética (Paulo Freire).”



A pós-modernidade tem se deparado com um tipo de discurso (reativo) se legitimando ou buscando construir legitimidade principalmente a partir da década de 1990. Esse discurso ou vinha no corpo mesmo ou na esteira de uma outra concepção que afirmava o fim da história ou o fim das ideologias.
Credenciado a partir do fim da União Soviética (URSS) e das esperanças (?) de um socialismo centrado na garantia do inalienável direito à felicidade humana _ em oposição ao socialismo real _ estava naturalmente determinado a conduzir, em uma visão rasa de determinismo linear, o ser humano, até que enfim, ao progresso e à felicidade.
No tocante às relações internacionais as nações atrasadas deveriam apenas seguir o exemplo e o modelo, agora, redentoramente ofertado pela cartilha infalível dos países ricos. O resto era questão de tempo e o mundo, segundo esse discurso, estava pronto para ser feliz e usufruir as conquistas tecnológicas do capitalismo humanizado.
Essa visão de mundo, que como discurso se manifesta em um conjunto de práticas e ações que vão de noticiários comprometidos com a “veracidade dos fatos” às falas de personagens televisivos e cinematográficos construiu, ao longo de sua experiência em formatar e normatizar nossa opinião, uma série de desdobramentos ou de discursos transversais que cumprem o mesmo destino: fazer-nos acreditar que existe uma forma apenas e apenas uma forma de ver o mundo, porque esta é a forma ou a maneira certa, incontestável e inconfundível.
Este paradigma, este discurso expressão do pensamento único e da naturalização de quase todas as situações sociais _ que seria um equivalente ou desdobramento dos fenômenos naturais e não-humanos _ foi, em toda sua potência, o genitor do discurso da técnica, investido da falácia da neutralidade.
Hoje, nestes tempos de modernidade tardia, é essa a derradeira carta na manga do pensamento único, da versão transformada em realidade, da opinião transformada em verdade e de uma forma de verdade transformada em fato. É este o papel do discurso da técnica: colocar um ponto final na discussão social, política, cultural, econômica e humana. Há um jeito de se fazer às coisas e um jeito apenas, em que a condução técnica da “coisa” – principalmente da coisa pública _ tem caráter de neutralidade.
Ser técnico, analisar tecnicamente é ser neutro e ponto final. É ser responsável com a “natureza das coisas”. Coisas que, naturalmente, têm cada uma o seu lugar, cada uma sua evolução.
Pois é esse discurso da neutralidade técnica travestida de eficácia para o bem comum, imparcial e infalível, que conduz nossa compreensão social pelos caminhos da superficialidade.
Para além das disputas teóricas iluministas e pós-iluministas, para além do reducionismo maniqueísta de nossa viciada percepção social, devemos incontinente centrar toda a força da racionalidade histórica em sua percepção: parece sensatamente aceitável que é tarefa de todas as pessoas preocupadas em tornar o bem-comum um lugar de justiça e de garantia do inalienável direito à felicidade humana.
Não é possível aceitar que o velho capitalismo (em que tudo o que se produz destina-se às relações de mercado, que não tem por princípio atender às necessidades humanas) utilize-se, incontestavelmente, de um discurso que tem como principal tarefa nos deixar calados e estáticos.
Calados, para um falso mundo técnico e imparcial, a-histórico, que naturaliza a pobreza, a desgraça humana, a violência, a dor, a infelicidade.
Estáticos, para um mundo que, vale dizer, assisti a derrota das ideologias pela ideologia da neutralidade técnica.

Paulo César Machado
Profº de História

A PANACÉIA EDUCACIONAL DO GOVERNO YEDA (OU SERÁ QUE SOMOS TODOS BURROS?)

Em reportagem de ZERO HORA do dia 27 de abril, intitulada “Piratini prepara revolução em carreiras”, o Governo do Estado do RS, dirigido pela Srª Yeda Crusius até o ano de 2010, definitivamente mostra para que veio.
E definitivamente mostra que veio para transferir responsabilidades, confundir a opinião pública, difundir a idéia de que o servidor público de carreira é o responsável pela qualidade do serviço público do estado.
Poderíamos mudar a linha de raciocínio e concluir que na verdade nossa incapacidade racional não nos permite estabelecer a relação simples e lógica que a governadora expressa com suas idéias revolucionárias.
Então vejamos. Para a governadora o serviço público do estado e suas leis pré-históricas são responsáveis por frear a competitividade do RS. Preocupado por não conseguir estabelecer a relação, talvez por uma formação acadêmica precária em história, consultei dois amigos economistas que, para meu espanto, ficamos os três sem conseguir acompanhar tal raciocínio.
Inconformado por nossa falta de sagacidade, ainda mais pelo compromisso que temos com uma educação pública de qualidade, só podemos concluir que nosso despreparo foi culpa das instituições nas quais nos formamos e, que no final, contribuiu o “estágio de mentirinha” (me permitindo citar a sábia e filosófica declaração da secretária Mariza Abreu) que realizamos com o aval das escolas irresponsáveis nas quais estagiamos.
Do lugar de educador, com contrato temporário, a afirmativa que pode causar mais revolta é aquela que sentencia que “o principal desafio é reverter à lógica que impera no funcionalismo: a de entrar na carreira de Estado de olho na aposentadoria”. Pelo que me consta, entramos na carreira de estado de olho na sobrevivência! Mas o que me choca é que, enquanto escrevo, busco contrapor o argumento de quem recebe de salário mais de R$ 7.000 por mês, R$ 84.000 por ano e R$ 336.000 em quatro anos, enquanto que um trabalhador gaúcho, com um mínimo regional, tenha que trabalhar 65 anos sem gastar um centavo para acumular R$ 335.571,60.
De qualquer forma, deixando de lado a sátira e o espanto por tais colocações, é preciso encarar o papel do Estado e a ação de governo com a eminência de quem tem consciência dos assuntos públicos e, de preferência, com uma agenda de responsabilidade social.
Nesse sentido queremos afirmar que a política de premiação deve vir bem depois da política de dignidade salarial, que a responsabilidade pelas políticas de estado não são dos servidores públicos que têm funções estatutárias definidas e não funções de mandato; que a qualidade do serviço público é o resultado do seu investimento público e da valorização profissional e que o funcionalismo público é exercido com responsabilidade, com compromisso e permanecerá responsável e compromissado após a passagem deste governo.
Ainda assim, entendemos, trabalhadores em educação e demais servidores públicos do Estado do RS, que mais do que nunca é preciso abrir o diálogo com a sociedade gaúcha e exigir políticas públicas de impacto social que conduzam nosso estado ao crescimento, ao desenvolvimento, à melhoria da qualidade de vida de todas as pessoas. E acima de tudo, que se faça isto com respeito ao servidor público que tem no sangue a cultura da solidariedade e do compromisso gaúcho.
Paulo César Machado

(Artigo de TERÇA-FEIRA, 29 DE ABRIL DE 2008)

Museu Carlos Nobre: um espaço para a cultura no século XXI

Paulo César Machado

De há muito tempo que se discute e se confronta a concepção positivista (contemplativa, heróica, enaltecedora e mítica) do papel atribuído às ciências responsáveis pela coleta, conservação, classificação, exposição e análise da produção material e imaterial da existência humana. Discussão essa, diga-se de passagem, que não se encontra alheia às preocupações históricas e culturais do Museu Carlos Nobre e da Secretaria de cultura do Município de Guaíba.
Hoje, pensar um museu é, entre suas outras dimensões, pensar um espaço privilegiado para a construção do conhecimento, para a reflexão. Um espaço de aprimoramento intelectual e contato cultural marcado tanto pelo exercício de criticidade quanto pelo confronto com a multiplicidade de interpretações e manifestações culturais, num tempo em que já se começa a superar a distinção preconceituosa entre alta e baixa cultura, entre cultura erudita e cultura popular.
O reconhecimento de uma época, seu funcionamento e sua lógica não se faz possível sem o convívio e o diálogo com o museu, em seu amplo sentido: seja ele histórico ou cultural. Também o reconhecimento do que somos num dado processo civilizatório, enquanto indivíduo, pode surgir do reflexo e da reflexão que em um determinado momento, completamente inesperado de nossas vidas, nos “abata” o contato com algum acervo.
Pois é na sedimentação dessas preocupações e dessas convicções que o museu Carlos Nobre busca, cada vez mais, cumprir um papel social de instituição comprometida com a garantia do acesso ao espaço e ao acervo museológico oficial de Guaíba. Não só isso: busca garantir espaço para atividades culturais, as quais, não se realizariam na “atmosfera” necessária, não fosse nosso museu_ patrimônio público cultural_ expressão do compromisso e da responsabilidade social de muitos, que ontem e hoje, pensam com seriedade as políticas culturais em nosso município.
Cada vez mais o Museu Carlos Nobre se afirma como um espaço para a cultura no século XXI. Não um espaço qualquer ou o único espaço cultural. Respeitando a diversidade das identidades culturais, as diferentes manifestações artísticas e interpretações históricas documentais de seu acervo, busca promover cada vez mais a aproximação com nossa comunidade, a saber, como um espaço cultural para todos, comprometido com a expressão democrática das artes, da sensibilidade humana, das interpretações, das manifestações culturais.

Professor de história

Guaíba: A municipalização do crescimento econômico e do desenvolvimento social

Em tempos pós-modernos, de aparente ausência de alternativas para o crescimento econômico e o desenvolvimento social, urge analisar e destacar o papel do município no encaminhamento destas questões.
Mesmo reconhecendo as complexidades da realidade econômica que afetam os municípios, em um contexto macroeconômico globalizado, me coloco entre aqueles que defendem as políticas culturais como fator de fomento e de crescimento da economia local.
Grosso modo, pode-se destacar que uma gestão municipal que utilize um abrangente programa de políticas culturais, como fator de desenvolvimento da economia local, insere sua comunidade em uma estratégia de ampliação do ciclo de produção e consumo.
Não é preciso entrar no debate de que para haver consumo é preciso haver salário que equivale a emprego. Nem tampouco, que mais salários ou empregos equivalem a mais consumo, que resultam em aumento da produção de serviços ou de artigos comercializáveis. Da mesma forma, não é preciso se debruçar sobre possíveis falhas da vida real desse raciocínio econômico. Pois as falhas ou os êxitos dependem da intencionalidade do argumento e do comprometimento social.
No que concerne à nossa cidade uma estratégia municipal eficaz estaria em uma ampla política de parcerias com todos os setores da economia local. Uma política de parcerias que inteligente e criativamente soubesse comprometer toda a iniciativa privada do município: livrarias, restaurantes, lojas, empresas, universidades, serviços e unidades domésticas envolvidas com as políticas culturais promovidas pelo município e engajadas no crescimento econômico e no desenvolvimento social.
É possível, por exemplo, inserir o município no circuito de turismo regional e nacional. Basta que haja investimento sério e de monta por parte do poder público, seja no que se refere à melhoria da infra-estrutura local, seja na imagem de cidade histórica e de turismo de eventos, bem como ao incentivo fiscal à iniciativa privada. No que se refere à captação de recursos tanto os canais convencionais quanto às políticas de atração de investimentos devem figurar nas iniciativas da gestão pública.
Da mesma forma é possível buscar o desenvolvimento econômico dos bairros mais pobres com o incentivo da economia comunitária e do emprego comunitário. Isso para não mencionar o incentivo e a inclusão das manifestações artísticas locais nessa estratégia de desenvolvimento a partir de políticas municipais que convertam cultura popular em renda.
Mesmo sem aprofundar este tema é possível perceber, inclusive e a um só tempo, a diminuição da criminalidade e da violência urbana. Políticas culturais como recurso podem promover esse desenvolvimento integrado de todo o município: valorizando a cultura local, promovendo redes de produção e consumo popular, garantindo espaços públicos às atividades artísticas e esportivas das diferentes tribos e identidades.
As estratégias e as soluções para o avanço econômico e o desenvolvimento social passam, principalmente, pelo êxito da iniciativa privada de pequeno e médio porte, por políticas de parceria promovidas pelo poder público e por políticas públicas capazes de proporcionar a geração de renda a quem não tem renda. A economia globalizada e excludente exige a presença do poder público municipal nessas estratégias. Cabe ao executivo municipal, então, envolver todos os setores da economia e da sociedade guaibense, cabe repetir, a partir também de políticas culturais comprometidas com o crescimento e o desenvolvimento integrado e combinados entre a iniciativa privada e a sociedade civil.
Paulo César Machado
Professor de História