sábado, 29 de setembro de 2018

ELE NÃO

   O que deve se passar pela cabeça de um candidato à Presidência da República, que acredita que a eleição já está no papo, e se depara com um movimento organizado por mulheres em oposição à sua candidatura? Difícil dizer! Talvez o referido candidato viva uma situação de transe cuja realidade dos acontecimentos seja reduzida ao tamanho das próprias opiniões machistas: manifestações isoladas que não irão alterar o resultado eleitoral que, aliás, "não aceito resultado diferente da minha vitória".
   O fato é que hoje, 29 de setembro de 2018, O País assistiu uma série de manifestações por todo o território nacional. Manifestações organizadas por milhares de mulheres lutadoras, guerreiras maravilhosas que decidiram manifestar o repúdio a uma candidatura que representa tudo aquilo que há de mais perverso e imoral na vida civilizada. Contra esse candidato e contra tudo o que ele representa é que gritaram "ele não, ele nunca, ele jamais".
   Hoje, merece uma saudação e uma reverência esta coragem que uniu milhões de mulheres e que mobilizou movimentos sociais e minorias. Hoje, o protagonismo é sim, incontestavelmente de gênero. Hoje, o protagonismo é sim feminino. Hoje, uma força feminina se levanta e cobra uma dívida histórica, uma dívida política e uma dívida moral que o machismo neste país vem impondo às valorosas mulheres desta nação.
   Nenhuma pessoa minimamente civilizada e lúcida, e comprometida com o respeito à dignidade humana e com os direitos humanos, pode aceitar, ou defender o que esse candidato da barbárie e seus eleitores autoritários, antidemocráticos e fascistas querem impor à parcela pobre, negra, LGBT e feminina do Brasil. Não têm noção exata do perigo para a democracia, para os direitos sociais, políticos e trabalhistas, a eleição desse candidato.
   Felizmente, está ficando claro que a salvação da democracia brasileira (que precisa avançar) está nas mãos dos nordestinos e das mulheres. Mulheres guerreiras, mulheres lutadoras, mulheres lúcidas, mulheres de fibra.
   Esperamos que essa força feminina possa definir as eleições e dobrar o bolsonarismo que quer desabrochar como variante fascista tropical. Vencidas às eleições, as forças democráticas precisam pensar estratégias que dissolvam esses grupos e essas ideias que buscam em Bolsonaro uma alternativa política. Alternativa cujo argumento político é a violência e a agressividade. Alternativa cuja prática política não aceita o debate, não aceita oposição, não aceita perder. 
   

quinta-feira, 1 de março de 2018


CARTA ABERTA SOBRE O FECHAMENTO DA EJA DA EMEF PREFEITO JOSÉ LINCK EM GRAVATAÍ

Nos últimos 4 dias, fui inquirido muito mais vezes sobre o fechamento da EJA da EMEF Prefeito José Linck (que ocorreu ao final do ano letivo de 2017) do que em todo o período posterior ao seu encerramento. Obviamente, porque quando se dera o ocorrido eu ainda ocupava a função de vice-diretor à noite, ainda que fosse de conhecimento geral que eu não quisera compor a chapa que reconduziu a equipe diretiva. Declinei, simplesmente por não querer mais, assim como três outros colegas da EJA, convidados a compor a chapa como vice direção da noite, também recusaram. De qualquer modo, o ano letivo de 2018 iria iniciar sem vice direção à noite e uma ou outra alteração no quadro de recursos humanos.
Na segunda metade do terceiro trimestre, ocorreram algumas reuniões entre a Direção da escola e a SMED. Essas reuniões, diga-se de passagem, quando não eram sobre ouvidorias (e foram pelo menos três naqueles dias, das quais pelo menos duas foram feitas por colegas da escola ou familiar de colegas, e simplesmente por discordarem da forma como a escola era gerida ou não gostarem da pessoa da diretora), eram, essas “agendas”, marcadas por cobranças ou “busca de esclarecimentos” pelo setor pedagógico da SMED. Eu participara da última dessas reuniões, na qual surgiu o assunto sobre o número de estudantes da EJA, que era baixo e seria ainda menor em 2018. A pauta da reunião não era essa, mas uns “ajustes” entre Escola e SMED, definidos como “ajustes na comunicação” para futuros encaminhamentos. Nesse dia, foi relatado ter ocorrido uma espécie de “ouvidoria” contra a escola no balcão de atendimento da Portaria da mantenedora. Mas o fato é que no meio da conversa surgiu o assunto do “número reduzido de alunos da EJA”. Foi solicitado levantamento sobre o local de residência desses estudantes e o número de matrículas. Constatou-se que entre 70% e 85% residiam entre as paradas 107 e 101, perto de outra escola com oferta de EJA. A mantenedora ficou de providenciar transporte aos alunos do entorno da EMEF Prefeito José Linck (parada 92) para essa outra Escola. Tudo se definiu em pouquíssimos dias.
De fato, nós, professores da EJA, não nos mobilizamos em oposição, da mesma forma que a Comunidade Escolar não se mobilizou. Não houve nenhuma manifestação, diferente de outras Escolas no Estado que fecharam e manifestações contrárias foram noticiadas. O resultado, sabemos, é de conhecimento comum. Por que faço esse relato? Porque a única reação, surpreendente, a qual atribuo ao mau-caratismo, foi me dizerem e dizerem a estudantes da EJA que “o assunto na SMED era que eu havia ajudado a fechar a EJA”, deliberadamente. De repente me vi empoderado, um agente das decisões políticas que são de exclusiva competência de quem governa o Município. O que posso dizer? Canalhas, canalhas, canalhas. O mau-caratismo viceja em todo lugar, até mesmo na Educação. Em minha defesa, resta dizer que sempre procurei cumprir com minhas obrigações de servidor público e professor, e isso durante os 20 anos que atuo na Educação Pública. Não imaginava que o ano letivo de 2018 me confrontaria com opiniões que insistem reduzir a realidade ao tamanho das próprias concepções, construindo narrativas estreitas e de má-fé. É fácil perceber o quanto a educação pública vem minguando ao longo do tempo. Parte é responsabilidade das decisões de gestão na Educação Pública. Uma parte muito maior tem sido a estreiteza de entendimento e a incapacidade de enxergar o panorama geral no qual definha a escola pública. Por enquanto, meu embate é com o súbito desconforto de atuar em uma categoria na qual exista quem haja como os escolásticos na idade média, os quais preferiam discutir quantos dentes tem um dromedário, segundo Aristóteles, ao invés de simplesmente contar os dentes do animal. Pois não é que o senso comum chegou acelerado ao “chão da escola”! Agora sabemos que já vivíamos a “escola sem partido” no seio das “cabeças ditas pensantes” e nem havíamos percebido. A educação líquida, nesse processo de sucateamento estrutural e, agora, ético, entrou a passos largos em liquidação.

Gravataí, 01 de março de 2018.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

VAMOS FALAR SOBRE EDUCAÇÃO PÚBLICA?



“Do ponto de vista metodológico, didático e pedagógico quando a prática de tentar impor um determinado ponto de vista é reincidente, é porque alguma coisa não está certa ou de fato está muito errada”.
                                                                                                                                    
Desde o surgimento do Homo Sapiens, nos caracterizamos pela capacidade de compartilhar conhecimento. Se essa não é a principal característica ao nível do indivíduo, é característica fundamental à coesão e sobrevivência da espécie.
 Ao longo do tempo, sistematizamos e aperfeiçoamos esse compartilhamento e, como consequência, organizamos a Educação Formal. Uma Educação que, grosso modo, não pode ser entendida descolada dos cenários que marcam nossa trajetória.
Nesse percurso acelerado de histórias não contadas, nos deparamos com a Educação Pública sendo objeto de disputa entre narrativas. O efeito prático foi a auto atribuição de “Veritas” por toda e qualquer opinião, não obstante a evidente intensão de reduzir as realidades ao tamanho das próprias concepções. Disso resulta que trocamos o debate sobre caminhos e desafios da Escola Pública por cabos de guerra e discursos panfletários e unilaterais.
É bem provável que nessa história (do compartilhamento rústico ao estágio da Educação Formal) quem mais tenha perdido tenha sido a escola pública. A Educação Formal pode até ter se anabolizado, mas a Educação Pública minguou. Grupos de indivíduos se beneficiaram enquanto a Sociedade perdia.
Em termos práticos, a mudança se encontra em trilhar caminho diferente desse que nos trouxe aonde estamos. Devemos compartilhar responsabilidades ao invés de depositá-las no colo dos professores em sala de aula. Dito isso, parece óbvio que o ponto de partida não está em metodologias mágicas, em pedagogias repetitivas, em discursos governamentais vazios, em práticas pedagógicas desengajadas da luta civilizatória. O ponto de partida está naquilo que, para Yuval Harari, permitiu ao sapiens ultrapassar as outras espécies do gênero Homo: nossa irresistível capacidade de cooperar.
                                                                         Professor de História e Supervisor Educacional na Rede Municipal de Gravataí.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

TEMPO




PAULO CÉSAR MACHADO

Ele acordou um dia e pensou como tudo seria diferente se fosse dono do próprio tempo. Não, não pensava em ser dono da própria vida, entubada ao cotidiano, presa à decomposição, às convenções do tempo e do lugar, à complexidade da sobrevivência. Ele queria mesmo era ser dono do próprio tempo, não do tempo do mundo, do tempo da vida, do tempo das coisas, do tempo dos sentimentos. Ele queria que o tempo da própria existência fosse tão completamente seu, como os sapatos que calçava, e que mirava, procurando qualquer lembrança futura que sabia não estava lá. Ele se procurou percorrendo os olhos pela pequena sala. Se deparou com seu reflexo vazio na janela e viu que não estava lá. Ele simplesmente não estava lá.
Ele acordou um dia e pensou como tudo seria diferente se fosse dono do próprio tempo. Não, ele não estava triste. Mas ele estava perplexo. Uma perplexidade raivosa, dessas que fazem perecer tudo sobre o qual repousa os olhos. Ele sentou-se próximo à janela em um ato mecânico. E mais uma vez se perdia olhando a pequena árvore em frente à casa, a rua de terra que multiplicava o pó, o silêncio que desabava como bomba atômica. Ele se procurou. Percorrendo os olhos sobre a morna paisagem, viu que não estava lá. Ele simplesmente não estava lá.
Ele acordou um dia e pensou como tudo seria diferente se fosse dono do próprio tempo. Não, ele não estava preso. Ele olhava pela janela e via o tempo consumir a vida em cada folha que despencava, em cada galho que se curvava, em cada dia que amanhecia. Ele pensava em todas as coisas que não veria, e pensava no tempo depois do tempo, nas coisas depois das coisas, no futuro depois do futuro. Ele se procurou -  no depois depois do bem depois -  e viu que não estava lá. Ele simplesmente não estava lá.
Ele acordou um dia e pensou como tudo seria diferente se fosse dono do próprio tempo. Não, ele não estava doido. Ele via claramente como a ideia fixa não estava em sua cabeça, e que ao contrário, a fixação habitava a temporalidade. A fixação estava fixa em sua temporalidade. Um tempo que deveria ser seu, que fora roubado pela transitoriedade da fixação na permanência de seu próprio tempo. Ele se procurou na temporalidade fixada nessa transitoriedade e viu que não estava lá. Ele simplesmente não estava lá.
Ele acordou um dia e pensou como tudo seria diferente se fosse dono do próprio tempo. Não, ele não estava morto. Mas se sentia um cadáver enterrado. Enterrado em um caixão cuja matéria-prima fora a janela, a paisagem, a perplexidade raivosa, a decomposição no tempo, o silêncio atômico e a própria transitoriedade. Ele se procurou na Vida que havia entregado à própria temporalidade; mas, que diabos, ele viu que não estava lá. Ele simplesmente não estava lá.
Ele acordou um dia e pensou como tudo seria diferente se fosse dono do próprio tempo. Não, ele não estava vivo. Ele estava atado à existência que amarelava folhas, curvava galhos, multiplicava o pó da rua de terra, cristalizava o maldito silêncio que desabava como bomba atômica. Ele olhou firme nos olhos da própria existência e viu que não havia nada que fosse ele e estivesse lá. Ele simplesmente não estava lá.
Ele acordou um dia e pensou como tudo seria diferente se fosse dono do próprio tempo. Não, ele não percebeu os anos. A janela, a árvore, as folhas, a terra, o pó e o silêncio atômico não notaram que ele havia amarelado. Ele, que tanto contemplara a janela, a árvore, as folhas amarelas que caiam, os galhos que curvavam, a rua de terra e o pó que se multiplicava, não encontrara tempo para o próprio tempo, nem vida para a própria vida. Como um silêncio atômico quis encarar de frente a própria perplexidade, mas ele não estava lá. Simplesmente, ele não estava lá...
Ela acordou um dia e pensou como tudo seria diferente se fosse dona do próprio tempo. Não, ela não era como o velho pai. Não pensava em ser dona da própria vida, desentubar-se do cotidiano, transgredir a decomposição, burlar as convenções do tempo e do lugar, relevar a complexidade da sobrevivência. Ela queria era ser dona do próprio tempo, não do tempo do mundo, do tempo da vida, do tempo das coisas, do tempo dos sentimentos. Ela queria que o tempo da própria existência fosse tão completamente seu, como as sandálias que calçava, e que mirava, procurando qualquer futuro que sabia não estava lá. Ela se procurava, percorrendo os olhos pela própria história, e via que não estava lá. Ela simplesmente não estava lá...
A Vida acordou um dia e pensou como tudo seria diferente se fosse dona do próprio tempo. Não, ela não queira o tempo futuro. Ela queria o tempo depois do futuro, o futuro depois de tudo, mas a própria vida, o futuro e o tempo não estavam lá. Eles olhavam e se procuravam e viam que não estavam lá. Simplesmente, eles não estavam lá.
O Tempo acordou um dia...



Gravataí, 13 de fevereiro de 2018.