terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

VAMOS FALAR SOBRE EDUCAÇÃO PÚBLICA?



“Do ponto de vista metodológico, didático e pedagógico quando a prática de tentar impor um determinado ponto de vista é reincidente, é porque alguma coisa não está certa ou de fato está muito errada”.
                                                                                                                                    
Desde o surgimento do Homo Sapiens, nos caracterizamos pela capacidade de compartilhar conhecimento. Se essa não é a principal característica ao nível do indivíduo, é característica fundamental à coesão e sobrevivência da espécie.
 Ao longo do tempo, sistematizamos e aperfeiçoamos esse compartilhamento e, como consequência, organizamos a Educação Formal. Uma Educação que, grosso modo, não pode ser entendida descolada dos cenários que marcam nossa trajetória.
Nesse percurso acelerado de histórias não contadas, nos deparamos com a Educação Pública sendo objeto de disputa entre narrativas. O efeito prático foi a auto atribuição de “Veritas” por toda e qualquer opinião, não obstante a evidente intensão de reduzir as realidades ao tamanho das próprias concepções. Disso resulta que trocamos o debate sobre caminhos e desafios da Escola Pública por cabos de guerra e discursos panfletários e unilaterais.
É bem provável que nessa história (do compartilhamento rústico ao estágio da Educação Formal) quem mais tenha perdido tenha sido a escola pública. A Educação Formal pode até ter se anabolizado, mas a Educação Pública minguou. Grupos de indivíduos se beneficiaram enquanto a Sociedade perdia.
Em termos práticos, a mudança se encontra em trilhar caminho diferente desse que nos trouxe aonde estamos. Devemos compartilhar responsabilidades ao invés de depositá-las no colo dos professores em sala de aula. Dito isso, parece óbvio que o ponto de partida não está em metodologias mágicas, em pedagogias repetitivas, em discursos governamentais vazios, em práticas pedagógicas desengajadas da luta civilizatória. O ponto de partida está naquilo que, para Yuval Harari, permitiu ao sapiens ultrapassar as outras espécies do gênero Homo: nossa irresistível capacidade de cooperar.
                                                                         Professor de História e Supervisor Educacional na Rede Municipal de Gravataí.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

TEMPO




PAULO CÉSAR MACHADO

Ele acordou um dia e pensou como tudo seria diferente se fosse dono do próprio tempo. Não, não pensava em ser dono da própria vida, entubada ao cotidiano, presa à decomposição, às convenções do tempo e do lugar, à complexidade da sobrevivência. Ele queria mesmo era ser dono do próprio tempo, não do tempo do mundo, do tempo da vida, do tempo das coisas, do tempo dos sentimentos. Ele queria que o tempo da própria existência fosse tão completamente seu, como os sapatos que calçava, e que mirava, procurando qualquer lembrança futura que sabia não estava lá. Ele se procurou percorrendo os olhos pela pequena sala. Se deparou com seu reflexo vazio na janela e viu que não estava lá. Ele simplesmente não estava lá.
Ele acordou um dia e pensou como tudo seria diferente se fosse dono do próprio tempo. Não, ele não estava triste. Mas ele estava perplexo. Uma perplexidade raivosa, dessas que fazem perecer tudo sobre o qual repousa os olhos. Ele sentou-se próximo à janela em um ato mecânico. E mais uma vez se perdia olhando a pequena árvore em frente à casa, a rua de terra que multiplicava o pó, o silêncio que desabava como bomba atômica. Ele se procurou. Percorrendo os olhos sobre a morna paisagem, viu que não estava lá. Ele simplesmente não estava lá.
Ele acordou um dia e pensou como tudo seria diferente se fosse dono do próprio tempo. Não, ele não estava preso. Ele olhava pela janela e via o tempo consumir a vida em cada folha que despencava, em cada galho que se curvava, em cada dia que amanhecia. Ele pensava em todas as coisas que não veria, e pensava no tempo depois do tempo, nas coisas depois das coisas, no futuro depois do futuro. Ele se procurou -  no depois depois do bem depois -  e viu que não estava lá. Ele simplesmente não estava lá.
Ele acordou um dia e pensou como tudo seria diferente se fosse dono do próprio tempo. Não, ele não estava doido. Ele via claramente como a ideia fixa não estava em sua cabeça, e que ao contrário, a fixação habitava a temporalidade. A fixação estava fixa em sua temporalidade. Um tempo que deveria ser seu, que fora roubado pela transitoriedade da fixação na permanência de seu próprio tempo. Ele se procurou na temporalidade fixada nessa transitoriedade e viu que não estava lá. Ele simplesmente não estava lá.
Ele acordou um dia e pensou como tudo seria diferente se fosse dono do próprio tempo. Não, ele não estava morto. Mas se sentia um cadáver enterrado. Enterrado em um caixão cuja matéria-prima fora a janela, a paisagem, a perplexidade raivosa, a decomposição no tempo, o silêncio atômico e a própria transitoriedade. Ele se procurou na Vida que havia entregado à própria temporalidade; mas, que diabos, ele viu que não estava lá. Ele simplesmente não estava lá.
Ele acordou um dia e pensou como tudo seria diferente se fosse dono do próprio tempo. Não, ele não estava vivo. Ele estava atado à existência que amarelava folhas, curvava galhos, multiplicava o pó da rua de terra, cristalizava o maldito silêncio que desabava como bomba atômica. Ele olhou firme nos olhos da própria existência e viu que não havia nada que fosse ele e estivesse lá. Ele simplesmente não estava lá.
Ele acordou um dia e pensou como tudo seria diferente se fosse dono do próprio tempo. Não, ele não percebeu os anos. A janela, a árvore, as folhas, a terra, o pó e o silêncio atômico não notaram que ele havia amarelado. Ele, que tanto contemplara a janela, a árvore, as folhas amarelas que caiam, os galhos que curvavam, a rua de terra e o pó que se multiplicava, não encontrara tempo para o próprio tempo, nem vida para a própria vida. Como um silêncio atômico quis encarar de frente a própria perplexidade, mas ele não estava lá. Simplesmente, ele não estava lá...
Ela acordou um dia e pensou como tudo seria diferente se fosse dona do próprio tempo. Não, ela não era como o velho pai. Não pensava em ser dona da própria vida, desentubar-se do cotidiano, transgredir a decomposição, burlar as convenções do tempo e do lugar, relevar a complexidade da sobrevivência. Ela queria era ser dona do próprio tempo, não do tempo do mundo, do tempo da vida, do tempo das coisas, do tempo dos sentimentos. Ela queria que o tempo da própria existência fosse tão completamente seu, como as sandálias que calçava, e que mirava, procurando qualquer futuro que sabia não estava lá. Ela se procurava, percorrendo os olhos pela própria história, e via que não estava lá. Ela simplesmente não estava lá...
A Vida acordou um dia e pensou como tudo seria diferente se fosse dona do próprio tempo. Não, ela não queira o tempo futuro. Ela queria o tempo depois do futuro, o futuro depois de tudo, mas a própria vida, o futuro e o tempo não estavam lá. Eles olhavam e se procuravam e viam que não estavam lá. Simplesmente, eles não estavam lá.
O Tempo acordou um dia...



Gravataí, 13 de fevereiro de 2018.