quinta-feira, 2 de setembro de 2010

A AÇÃO SUPERVISORA NO UNIVERSO ESCOLAR

Este texto tem por objetivo apresentar algumas considerações e reflexões a partir do livro Supervisão e Gestão na Escola: Conceitos e Práticas de Mediação, lançado pela Papirus Editora, em 2009.
Não há a pretensão neste trabalho em se avaliar separadamente cada um dos artigos publicados. Não porque apenas outra proposta pareça mais atraente, mas, justamente, por se partir do entendimento de que a obra busca nada menos do que apresentar um entrelaçamento das reflexões e análises. A culminância, parece óbvio, constrói um panorama de interpretações complementares que desenham e projetam o espaço de atuação da Supervisão (e Orientação), no cenário da Gestão Escolar.
Mais instigante, por ocasião de leitura realizada com o desejo de percorrer um caminho em direção à ação supervisora, é a oportunidade de apropriação dos “conceitos e práticas de mediação” para reflexões que afloram ao longo das análises produzidas pelos autores.
Nada melhor do que partir da convicção apresentada sobre o papel e a importância do Supervisor, de sua atuação desvinculada dos gabinetes, seu compromisso com o processo pedagógico, a construção coletiva de soluções e a percepção da necessidade de integração entre Supervisão e Orientação escolar. Mais do que isso: uma integração que não represente transferência de responsabilidades nem centralização de decisões, mas, ao contrário, seja o resultado e o motor de uma atuação pedagógica comprometida com a construção de uma escola melhor, um ambiente de exercício de cidadania, um ecossistema de produção de saber.
Cada vez mais a figura do supervisor e a indispensável ação supervisora grassam entre as estratégias de mediador e mediação necessárias a eficiência da gestão escolar. Este entendimento não apenas é tradicional nas noções de administração e gerenciamento como se torna inovador quando aplicado como metodologia de aprimoramento das relações pedagógicas, as quais, são definidas aqui, como os métodos e resultados da mediação do contato humano em ambiente destinado à construção do conhecimento.
A mediação como aprimoramento das relações pedagógicas deve pressupor que as fronteiras entre a Ação Supervisora e a Ação Orientadora são móveis; quer dizer, não sendo rígidas permitem uma atuação conjunta na solução dos conflitos pedagógicos, os quais tendiam a “reduzir” o aluno a esfera da Orientação, e os professores, à Supervisão.
Se as mudanças acentuadas a partir da segunda metade do século XX, basicamente na esfera da sociedade - na tecnologia, nos transportes e na cultura - promoveram ou desencadearam novas formas de gerenciamento e controle em benefício do sistema produtivo e do capital, também a mediação supervisora como aprimoramento das relações pedagógicas pode mudar no sentido de refutar as noções de controle e incentivar ações de reflexão, autonomia, participação, socialização das responsabilidades e decisões e práticas de cidadania.
Para tanto, é indispensável que a escola possa conhecer do significado e da importância de um Projeto Político Pedagógico e, no que se refere à Supervisão, poder elaborar seu Plano de Ação partindo da linha adotada e das diretrizes construídas pelo PPP.
Já deveria estar ficando óbvio, pelo menos há três décadas, que o espaço de atuação da Supervisão não se resume à atividade burocrática do processo de ensino-aprendizagem. A ação supervisora deve estar envolvida com o diagnóstico, a reflexão, o planejamento e a condução de projetos, programas e ações que contribuam com a promoção de uma ambiência saudável e estimuladora ao aprendizado, ao convívio, à interação, ao exercício da docência e à provocação de sinapses tão indispensáveis à produção de significações.
Mais do que nunca é preciso que o profissional da Supervisão seja uma pessoa de seu tempo, que conheça e acompanhe as transformações que “cicatrizam” a sociedade em acelerada mutação, que seja um pensador dos processos de globalização da cultura, da economia, da tecnologia e que possa então perceber e constatar das atuais habilidades e competências exigidas pelo mundo do trabalho, pela sociedade do conhecimento e pelas expectativas quanto à Educação Formal.
Ser um profissional da Supervisão Escolar significa reunir algumas características psicológicas e sócio-profissionais construídas no processo mesmo de supervisão: ética profissional, iniciativa, liderança, motivação, agilidade, ponderação, organização e paciência. Cada uma destas características deve estar a serviço da coletividade, voltada para o bem comum no universo escolar. E se a imparcialidade é o discurso dos que já tomaram a defesa da própria parte que a parcialidade do Supervisor seja em favor da ética universal, da democracia e da “intolerância” aos intolerantes.
A todos aqueles que não pensam a Supervisão Escolar para além das fronteiras das escrivaninhas e gavetas abarrotas de papéis pode parecer demasiado abstrato e vazio dissertar brevemente sobre uma profissão a qual a imagem que melhor a caricaturiza são pilhas e pilhas de cadernos de chamada. Mas já não é assim! Pelo menos não para aqueles Supervisores e aquelas Supervisoras que rechaçam a cristalização de suas funções pedagógicas aos limites do “isso não é com a Supervisão” ou, “isso é só com a Supervisão”.
Supervisor também é Educador! Sua presença deve ser um auxílio constante e um esforço implacável para que o processo de ensino-aprendizagem se realize com eficiência, com satisfação, com alegria, com motivação e com superação.
A Ação Supervisora comprometida com o Universo Escolar pode representar um suporte tão imediatamente necessário à Escola quanto ao próprio Supervisor. À Escola, pela certeza de encontrar na Supervisão um espaço de diálogo e reflexão na busca de soluções planejadas e conduzidas e, ao Supervisor, pelo aprimoramento, agilidade e reconhecimento de sua capacidade de mediação, liderança e motivação.




Referências bibliográficas

Rangel, M. (org.). Supervisão e gestão na escola: Conceitos e práticas de mediação. 2ª ed. Campinas: Papirus.

Freire, Paulo. (1996). Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 4ª ed. São Paulo: Paz e terra. (Coleção Leituras).