quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Meritocracia na Educação Pública

Escrevo este artigo movido menos pela indignação do que pelo espanto ao me deparar com as conclusões do economista americano Eric Hanushek e com as premissas do economista Cláudio de Moura Castro, especialista em educação, e da cientista política Patrícia Guedes do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial acerca dos fatores apresentados como responsáveis pela atual qualidade da Educação Pública.
Em linhas gerais, a concepção apresentada como alternativa para melhorar a educação no Brasil, se assenta em três premissas que concluem pela necessidade de se premiar bons professores e punir maus educadores. São elas: a qualidade do ensino é diretamente proporcional à qualidade do professor; “como a profissão não é atrativa, os mais talentosos, em geral, buscam outras carreiras” e, a administração, controle e avaliação pedagógica dos professores deve ser política de Estado.
Já faz algum tempo que paira uma concepção pedagógica senso comum de Educação que tenta transferir para o professor toda a responsabilidade do processo de ensino. O educador é visto como agente isolado pelo qual e através do qual se produz o ambiente necessário a boa educação. É a lógica do “professor bom, produz aluno bom; educador ruim constrói educando ruim”.
Não fosse este discurso o enunciado de uma condição Pós-moderna em que transitam prescrições políticas disfarçadas de interpretações científicas e a sociedade não perceberia a artimanha de tanta hipocrisia.
Mas não é apenas isto! Concluir que em geral as pessoas talentosas não buscam carreira na Educação Pública é na pior das hipóteses incapacidade de analisar fatores e condicionantes sociais e, na melhor, uma tese com um discurso bem pago.
Primeiro é preciso dizer que o talento para as mais diferentes habilidades é uma construção que se dá em sociedade, condicionada às implicações do tempo e do espaço, do desenvolvimento cultural e das necessidades de sobrevivência. É meio difícil imaginar um Australopithecus com talento para a Medicina moderna, ou para a Engenharia ou o Direito.
Quero acreditar que a maioria das pessoas que buscam a formação em licenciatura quer, como qualquer outro profissional, desenvolver ao longo de sua carreia a capacidade de exercer bem a sua profissão.
No mais, seria realmente inovador se o Poder Público começasse aplicando princípios meritocráticos em sua própria capacidade de gerir a coisa pública.
De qualquer forma não há aqui condições de se desenvolver análises e confrontar posições que garantam ao menos um entendimento superficial das implicações da meritocracia na Educação Pública do País. Estando as escolas do jeito que estão, com professores divididos entre preocupações de orçamento doméstico e preocupações pedagógicas, estas propostas- é preciso dizer- beiram o bestial.
Com tanta publicidade dada a uma palavra que pretende encerrar toda uma teoria de como se conduzir a Educação Pública é difícil não pensar que entre a meritocracia e a educação não pode haver conhecimento, entre a meritocracia e a educação só pode haver ideologia.

Paulo César Machado
Professor de história e
Pós-graduando em Supervisão Educacional.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

A AÇÃO SUPERVISORA NO UNIVERSO ESCOLAR

Este texto tem por objetivo apresentar algumas considerações e reflexões a partir do livro Supervisão e Gestão na Escola: Conceitos e Práticas de Mediação, lançado pela Papirus Editora, em 2009.
Não há a pretensão neste trabalho em se avaliar separadamente cada um dos artigos publicados. Não porque apenas outra proposta pareça mais atraente, mas, justamente, por se partir do entendimento de que a obra busca nada menos do que apresentar um entrelaçamento das reflexões e análises. A culminância, parece óbvio, constrói um panorama de interpretações complementares que desenham e projetam o espaço de atuação da Supervisão (e Orientação), no cenário da Gestão Escolar.
Mais instigante, por ocasião de leitura realizada com o desejo de percorrer um caminho em direção à ação supervisora, é a oportunidade de apropriação dos “conceitos e práticas de mediação” para reflexões que afloram ao longo das análises produzidas pelos autores.
Nada melhor do que partir da convicção apresentada sobre o papel e a importância do Supervisor, de sua atuação desvinculada dos gabinetes, seu compromisso com o processo pedagógico, a construção coletiva de soluções e a percepção da necessidade de integração entre Supervisão e Orientação escolar. Mais do que isso: uma integração que não represente transferência de responsabilidades nem centralização de decisões, mas, ao contrário, seja o resultado e o motor de uma atuação pedagógica comprometida com a construção de uma escola melhor, um ambiente de exercício de cidadania, um ecossistema de produção de saber.
Cada vez mais a figura do supervisor e a indispensável ação supervisora grassam entre as estratégias de mediador e mediação necessárias a eficiência da gestão escolar. Este entendimento não apenas é tradicional nas noções de administração e gerenciamento como se torna inovador quando aplicado como metodologia de aprimoramento das relações pedagógicas, as quais, são definidas aqui, como os métodos e resultados da mediação do contato humano em ambiente destinado à construção do conhecimento.
A mediação como aprimoramento das relações pedagógicas deve pressupor que as fronteiras entre a Ação Supervisora e a Ação Orientadora são móveis; quer dizer, não sendo rígidas permitem uma atuação conjunta na solução dos conflitos pedagógicos, os quais tendiam a “reduzir” o aluno a esfera da Orientação, e os professores, à Supervisão.
Se as mudanças acentuadas a partir da segunda metade do século XX, basicamente na esfera da sociedade - na tecnologia, nos transportes e na cultura - promoveram ou desencadearam novas formas de gerenciamento e controle em benefício do sistema produtivo e do capital, também a mediação supervisora como aprimoramento das relações pedagógicas pode mudar no sentido de refutar as noções de controle e incentivar ações de reflexão, autonomia, participação, socialização das responsabilidades e decisões e práticas de cidadania.
Para tanto, é indispensável que a escola possa conhecer do significado e da importância de um Projeto Político Pedagógico e, no que se refere à Supervisão, poder elaborar seu Plano de Ação partindo da linha adotada e das diretrizes construídas pelo PPP.
Já deveria estar ficando óbvio, pelo menos há três décadas, que o espaço de atuação da Supervisão não se resume à atividade burocrática do processo de ensino-aprendizagem. A ação supervisora deve estar envolvida com o diagnóstico, a reflexão, o planejamento e a condução de projetos, programas e ações que contribuam com a promoção de uma ambiência saudável e estimuladora ao aprendizado, ao convívio, à interação, ao exercício da docência e à provocação de sinapses tão indispensáveis à produção de significações.
Mais do que nunca é preciso que o profissional da Supervisão seja uma pessoa de seu tempo, que conheça e acompanhe as transformações que “cicatrizam” a sociedade em acelerada mutação, que seja um pensador dos processos de globalização da cultura, da economia, da tecnologia e que possa então perceber e constatar das atuais habilidades e competências exigidas pelo mundo do trabalho, pela sociedade do conhecimento e pelas expectativas quanto à Educação Formal.
Ser um profissional da Supervisão Escolar significa reunir algumas características psicológicas e sócio-profissionais construídas no processo mesmo de supervisão: ética profissional, iniciativa, liderança, motivação, agilidade, ponderação, organização e paciência. Cada uma destas características deve estar a serviço da coletividade, voltada para o bem comum no universo escolar. E se a imparcialidade é o discurso dos que já tomaram a defesa da própria parte que a parcialidade do Supervisor seja em favor da ética universal, da democracia e da “intolerância” aos intolerantes.
A todos aqueles que não pensam a Supervisão Escolar para além das fronteiras das escrivaninhas e gavetas abarrotas de papéis pode parecer demasiado abstrato e vazio dissertar brevemente sobre uma profissão a qual a imagem que melhor a caricaturiza são pilhas e pilhas de cadernos de chamada. Mas já não é assim! Pelo menos não para aqueles Supervisores e aquelas Supervisoras que rechaçam a cristalização de suas funções pedagógicas aos limites do “isso não é com a Supervisão” ou, “isso é só com a Supervisão”.
Supervisor também é Educador! Sua presença deve ser um auxílio constante e um esforço implacável para que o processo de ensino-aprendizagem se realize com eficiência, com satisfação, com alegria, com motivação e com superação.
A Ação Supervisora comprometida com o Universo Escolar pode representar um suporte tão imediatamente necessário à Escola quanto ao próprio Supervisor. À Escola, pela certeza de encontrar na Supervisão um espaço de diálogo e reflexão na busca de soluções planejadas e conduzidas e, ao Supervisor, pelo aprimoramento, agilidade e reconhecimento de sua capacidade de mediação, liderança e motivação.




Referências bibliográficas

Rangel, M. (org.). Supervisão e gestão na escola: Conceitos e práticas de mediação. 2ª ed. Campinas: Papirus.

Freire, Paulo. (1996). Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 4ª ed. São Paulo: Paz e terra. (Coleção Leituras).