Júri: uma experiência radical
(...) nada na história humana é inevitável. Não existe destino. A todo o momento as pessoas poderiam ter escolhido outro caminho.
Mario Schmidt, historiador.
Escrevo sobre a experiência de compor um júri como quem não vê possibilidade em se vivenciar um tal evento e prosseguir calado. Se há um estado ou interjeição que se descola de nosso vocabulário social é o do silêncio. Mas não o da discrição!
Ao se concluir os trabalhos de um Conselho de Sentença o sentimento é o de quem se torna historicamente capaz: de juízo, de ponderação, de reflexão social.
Não consigo abandonar a idéia de que compor um júri é uma experiência radical! Eu me inclinaria a definir como revolucionária não fosse o fato de estar restrita a um número tal de pessoas não suficientemente grande para mudar os paradigmas atuais do comportamento social, do compromisso coletivo e incondicional de preservação da vida humana, de sua primordial inviolabilidade.
Preciso destacar que não me refiro aqui ao rito. Ainda que o ritual seja importante para constituir um consenso no imaginário social sobre as “prerrogativas” do Estado em arbitrar as relações humanas sujeitas aos princípios legais de uma determinada época.
Relevante ao universo da individualidade é a capacidade de se perceber o quanto cultivamos visões apressadas sobre o que julgamos (e julgamos tudo e todos ininterruptamente): no ordinário maniqueístas, reducionistas, unilaterais, preconceituosos.
E o surpreendente e paradoxal é que quanto mais avançamos na existência menor é o nosso senso crítico e maior nossa capacidade de concluir com base em esquemas intransigentes: de certo e errado e ponto; de bem e mal e ponto; de verdadeiro e falso e ponto; de mocinho e bandido e ponto.
Não quero aqui referir que somos bestialmente incapazes de concluir com bom senso e com certa medida de justiça; antes, que estamos condicionados a inferir sem contraditar, a não refletir investigativamente, a tomar a exceção pela regra, a parte pelo todo.
O melhor exemplo do que quero expressar está na anedota sobre os homens cultos da Europa Medieval que preferiam discutir quantos dentes tinha um cavalo segundo Aristóteles, a contar, eles próprios, os dentes do animal.
Pois é em sentido inverso que a experiência de compor um júri é algo radical. E de poder valorar e refletir sobre nossa própria responsabilidade, nosso compromisso com a sociedade, com a vida humana, com a construção da felicidade social.
Fiquei impressionado! Todo e qualquer ser humano deveria vivenciar tal experiência. Possivelmente se tornaria melhor. Não pelo que vê e pelo que sentencia, mas pelo que descobre de si mesmo, de sua época, da complexidade das relações humanas, de seu protagonismo na trajetória da vida. De seu protagonismo em toda e qualquer escolha.
Paulo César Machado
Professor de história
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