Falar em politização da agressividade pode
parecer estranho. Politização, é aceitável dizer, refere-se a uma suposta
capacidade de compreensão dos acontecimentos políticos. Consequentemente, essa
compreensão pode despertar uma vontade de participar ou influenciar as decisões
que dizem respeito às questões próprias da dinâmica política. Grosso modo, as
formas de participação se dão através da exposição de ideias, opiniões,
interação em debates, pressão ou tentativa de convencimento daqueles que foram
eleitos para representar correntes de opinião ou grupos de interesse, nas
esferas executiva e legislativa. Claro que uma discussão filosófica ou
sociológica sobre a temática, seria mais complexa e enriquecedora; mas, por
hora, essas definições servem ao propósito ao qual se deseja chegar.
Sob o ponto de vista da história ocidental,
esta politização é um desdobramento dos avanços dos meios de comunicação e
entretenimento que marcaram tão fortemente a primeira metade do século XX, e se
tornaram caracteres culturais de nossa civilização: a imprensa escrita, o
cinema e o rádio. Acrescentemos outro elemento, impressionantemente forte e
polarizado até o final da década de 1980, e que hoje, parece inegável, está
marcado pelas mudanças culturais de uma irresistível modernidade líquida – a opinião
pública. Essa opinião pública, por sua vez, já não pode mais ser
confortavelmente defina pelos conceitos que a definiam no contexto do
predomínio da razão iluminista. Dito isto, a premissa é a de que o avanço do
acesso às informações, ideias, opiniões e visões de mundo contribuiu para o
desenvolvimento de processos de politização. Esse desenvolvimento ocorreu
concomitante a outro processo, a saber, o de fortalecimento da cidadania, em um
contexto histórico ocidental muito particular.
Ocorre que com os avanços que tornaram o mundo
uma aldeia global, parte das pessoas ditas politizadas, em um processo não
dialógico de politização, marcado por todas as implicações de uma sociedade
pós-moderna com interesses acirrados, encontraram na agressividade o elemento
que por hora marca as disputas que envolvem seus protagonismos. Cabe destacar
que esta parcela de protagonismo está despolitizada para o diálogo, convívio e
construção de consensos. Estes são afrontados por medidas de força verbal. A
ideologia da negação das outras ideologias e a incessante tentativa de reduzir
a realidade social, histórica, política, cultural ao tamanho da própria opinião,
é a tônica dessa politização da agressividade. Uma agressividade que parece não
se importar de evoluir para uma politização da violência, fator que tem levado
muitos a encontrar similidade com um dos aspectos que marcou o fascismo alemão
do partido de Adolf Hitler: a violência como um argumento político.
No que se refere ao Brasil do último decênio,
e a polarização política que se constituiu em torno das posições
autoproclamadas de Direita e Esquerda, as redes sociais têm sido o veículo por
excelência das manifestações politicamente agressivas. Ao que tudo indica, e
apesar dos casos de agressividade verbal, estes, até o momento, não parecem
suficientemente polarizados a ponto de provocarem choques violentos entre esses
grupos. De fato, é possível perceber que as manifestações públicas antagônicas
têm respeitado os espaços alheios de manifestação. Entretanto, é importante
destacar o aumento considerável de ataques verbais racistas, homofóbicos,
machistas, religiosos e xenófobos que têm se proliferado pela rede, notadamente
pelo twitter e pelo facebook. Geralmente os autores desses ataques se utilizam
de contas fakes, o que dificulta a identificação e responsabilização criminal. Ao mesmo tempo, tudo leva a crer que o motor
desses ataques é um prepotente sentimento de superioridade e impunidade. E
aqui, o corte de classe social não seria suficiente para explicar o fenômeno.
Por fim, e apesar dessas manifestações de
barbárie, deveríamos ser capazes de colocar questões fundamentais ao nosso desenvolvimento
e avanço material. Estas questões dizem respeito ao que se tronou o Brasil
atual dentro da ordem capitalista (com seus ainda existentes ciclos de crise).
Mas também dizem respeito à corrupção enraizada na vida pública, ao judiciário
desacreditado, à educação pública ineficiente, à saúde pública atrasada, ao
sistema carcerário falido, à parcela da sociedade enriquecida incapaz de
aceitar políticas de redistribuição de renda, e ao Estado, ineficiente e
burocratizado, capaz de representar os interesses do poder econômico em
prejuízo da nação e de grande parte da população.
Paulo César Machado
Professor de História e Supervisor pedagógico
RS, 03 de fev de 2017.