CARTA
ABERTA SOBRE O FECHAMENTO DA EJA DA EMEF PREFEITO JOSÉ LINCK EM GRAVATAÍ
Nos
últimos 4 dias, fui inquirido muito mais vezes sobre o fechamento da EJA da
EMEF Prefeito José Linck (que ocorreu ao final do ano letivo de 2017) do que em
todo o período posterior ao seu encerramento. Obviamente, porque quando se dera
o ocorrido eu ainda ocupava a função de vice-diretor à noite, ainda que fosse
de conhecimento geral que eu não quisera compor a chapa que reconduziu a equipe diretiva. Declinei, simplesmente por não querer mais, assim como três outros
colegas da EJA, convidados a compor a chapa como vice direção da noite, também recusaram.
De qualquer modo, o ano letivo de 2018 iria iniciar sem vice direção à noite e uma ou outra alteração no quadro de recursos humanos.
Na
segunda metade do terceiro trimestre, ocorreram algumas reuniões entre a
Direção da escola e a SMED. Essas reuniões, diga-se de passagem, quando não
eram sobre ouvidorias (e foram pelo menos três naqueles dias, das quais pelo
menos duas foram feitas por colegas da escola ou familiar de colegas, e
simplesmente por discordarem da forma como a escola era gerida ou não gostarem
da pessoa da diretora), eram, essas “agendas”, marcadas por cobranças ou “busca
de esclarecimentos” pelo setor pedagógico da SMED. Eu participara da última
dessas reuniões, na qual surgiu o assunto sobre o número de estudantes da EJA,
que era baixo e seria ainda menor em 2018. A pauta da reunião não era essa, mas
uns “ajustes” entre Escola e SMED, definidos como “ajustes na comunicação” para futuros encaminhamentos.
Nesse dia, foi relatado ter ocorrido uma espécie de “ouvidoria” contra a escola no balcão de atendimento da Portaria da mantenedora. Mas o fato é que no meio
da conversa surgiu o assunto do “número reduzido de alunos da EJA”. Foi
solicitado levantamento sobre o local de residência desses estudantes e o
número de matrículas. Constatou-se que entre 70% e 85% residiam entre as
paradas 107 e 101, perto de outra escola com oferta de EJA. A mantenedora ficou
de providenciar transporte aos alunos do entorno da EMEF Prefeito José Linck
(parada 92) para essa outra Escola. Tudo se definiu em pouquíssimos dias.
De
fato, nós, professores da EJA, não nos mobilizamos em oposição, da mesma forma
que a Comunidade Escolar não se mobilizou. Não houve nenhuma manifestação,
diferente de outras Escolas no Estado que fecharam e manifestações contrárias foram
noticiadas. O resultado, sabemos, é de conhecimento comum. Por que faço esse
relato? Porque a única reação, surpreendente, a qual atribuo ao mau-caratismo, foi
me dizerem e dizerem a estudantes da EJA que “o assunto na SMED era que eu
havia ajudado a fechar a EJA”, deliberadamente. De repente me vi empoderado, um
agente das decisões políticas que são de exclusiva competência de quem governa
o Município. O que posso dizer? Canalhas, canalhas, canalhas. O mau-caratismo
viceja em todo lugar, até mesmo na Educação. Em minha defesa, resta dizer que
sempre procurei cumprir com minhas obrigações de servidor público e professor,
e isso durante os 20 anos que atuo na Educação Pública. Não imaginava que o ano
letivo de 2018 me confrontaria com opiniões que insistem reduzir a realidade ao
tamanho das próprias concepções, construindo narrativas estreitas e de má-fé. É
fácil perceber o quanto a educação pública vem minguando ao longo do tempo.
Parte é responsabilidade das decisões de gestão na Educação Pública. Uma parte
muito maior tem sido a estreiteza de entendimento e a incapacidade de enxergar
o panorama geral no qual definha a escola pública. Por enquanto, meu embate é
com o súbito desconforto de atuar em uma categoria na qual exista quem haja como os
escolásticos na idade média, os quais preferiam discutir quantos dentes tem um dromedário, segundo Aristóteles, ao invés de simplesmente contar os dentes do animal. Pois não é que o senso
comum chegou acelerado ao “chão da escola”! Agora sabemos que já vivíamos a “escola sem
partido” no seio das “cabeças ditas pensantes” e nem havíamos percebido. A educação líquida, nesse processo de sucateamento estrutural e, agora, ético, entrou a passos largos em liquidação.
Gravataí,
01 de março de 2018.
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