Este texto tem por objetivo apresentar algumas considerações e reflexões a partir do livro Supervisão e Gestão na Escola: Conceitos e Práticas de Mediação, lançado pela Papirus Editora, em 2009.
Não há a pretensão neste trabalho em se avaliar separadamente cada um dos artigos publicados. Não porque apenas outra proposta pareça mais atraente, mas, justamente, por se partir do entendimento de que a obra busca nada menos do que apresentar um entrelaçamento das reflexões e análises. A culminância, parece óbvio, constrói um panorama de interpretações complementares que desenham e projetam o espaço de atuação da Supervisão (e Orientação), no cenário da Gestão Escolar.
Mais instigante, por ocasião de leitura realizada com o desejo de percorrer um caminho em direção à ação supervisora, é a oportunidade de apropriação dos “conceitos e práticas de mediação” para reflexões que afloram ao longo das análises produzidas pelos autores.
Nada melhor do que partir da convicção apresentada sobre o papel e a importância do Supervisor, de sua atuação desvinculada dos gabinetes, seu compromisso com o processo pedagógico, a construção coletiva de soluções e a percepção da necessidade de integração entre Supervisão e Orientação escolar. Mais do que isso: uma integração que não represente transferência de responsabilidades nem centralização de decisões, mas, ao contrário, seja o resultado e o motor de uma atuação pedagógica comprometida com a construção de uma escola melhor, um ambiente de exercício de cidadania, um ecossistema de produção de saber.
Cada vez mais a figura do supervisor e a indispensável ação supervisora grassam entre as estratégias de mediador e mediação necessárias a eficiência da gestão escolar. Este entendimento não apenas é tradicional nas noções de administração e gerenciamento como se torna inovador quando aplicado como metodologia de aprimoramento das relações pedagógicas, as quais, são definidas aqui, como os métodos e resultados da mediação do contato humano em ambiente destinado à construção do conhecimento.
A mediação como aprimoramento das relações pedagógicas deve pressupor que as fronteiras entre a Ação Supervisora e a Ação Orientadora são móveis; quer dizer, não sendo rígidas permitem uma atuação conjunta na solução dos conflitos pedagógicos, os quais tendiam a “reduzir” o aluno a esfera da Orientação, e os professores, à Supervisão.
Se as mudanças acentuadas a partir da segunda metade do século XX, basicamente na esfera da sociedade - na tecnologia, nos transportes e na cultura - promoveram ou desencadearam novas formas de gerenciamento e controle em benefício do sistema produtivo e do capital, também a mediação supervisora como aprimoramento das relações pedagógicas pode mudar no sentido de refutar as noções de controle e incentivar ações de reflexão, autonomia, participação, socialização das responsabilidades e decisões e práticas de cidadania.
Para tanto, é indispensável que a escola possa conhecer do significado e da importância de um Projeto Político Pedagógico e, no que se refere à Supervisão, poder elaborar seu Plano de Ação partindo da linha adotada e das diretrizes construídas pelo PPP.
Já deveria estar ficando óbvio, pelo menos há três décadas, que o espaço de atuação da Supervisão não se resume à atividade burocrática do processo de ensino-aprendizagem. A ação supervisora deve estar envolvida com o diagnóstico, a reflexão, o planejamento e a condução de projetos, programas e ações que contribuam com a promoção de uma ambiência saudável e estimuladora ao aprendizado, ao convívio, à interação, ao exercício da docência e à provocação de sinapses tão indispensáveis à produção de significações.
Mais do que nunca é preciso que o profissional da Supervisão seja uma pessoa de seu tempo, que conheça e acompanhe as transformações que “cicatrizam” a sociedade em acelerada mutação, que seja um pensador dos processos de globalização da cultura, da economia, da tecnologia e que possa então perceber e constatar das atuais habilidades e competências exigidas pelo mundo do trabalho, pela sociedade do conhecimento e pelas expectativas quanto à Educação Formal.
Ser um profissional da Supervisão Escolar significa reunir algumas características psicológicas e sócio-profissionais construídas no processo mesmo de supervisão: ética profissional, iniciativa, liderança, motivação, agilidade, ponderação, organização e paciência. Cada uma destas características deve estar a serviço da coletividade, voltada para o bem comum no universo escolar. E se a imparcialidade é o discurso dos que já tomaram a defesa da própria parte que a parcialidade do Supervisor seja em favor da ética universal, da democracia e da “intolerância” aos intolerantes.
A todos aqueles que não pensam a Supervisão Escolar para além das fronteiras das escrivaninhas e gavetas abarrotas de papéis pode parecer demasiado abstrato e vazio dissertar brevemente sobre uma profissão a qual a imagem que melhor a caricaturiza são pilhas e pilhas de cadernos de chamada. Mas já não é assim! Pelo menos não para aqueles Supervisores e aquelas Supervisoras que rechaçam a cristalização de suas funções pedagógicas aos limites do “isso não é com a Supervisão” ou, “isso é só com a Supervisão”.
Supervisor também é Educador! Sua presença deve ser um auxílio constante e um esforço implacável para que o processo de ensino-aprendizagem se realize com eficiência, com satisfação, com alegria, com motivação e com superação.
A Ação Supervisora comprometida com o Universo Escolar pode representar um suporte tão imediatamente necessário à Escola quanto ao próprio Supervisor. À Escola, pela certeza de encontrar na Supervisão um espaço de diálogo e reflexão na busca de soluções planejadas e conduzidas e, ao Supervisor, pelo aprimoramento, agilidade e reconhecimento de sua capacidade de mediação, liderança e motivação.
Referências bibliográficas
Rangel, M. (org.). Supervisão e gestão na escola: Conceitos e práticas de mediação. 2ª ed. Campinas: Papirus.
Freire, Paulo. (1996). Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 4ª ed. São Paulo: Paz e terra. (Coleção Leituras).
Panorama Pós-moderno tem por objetivo apresentar artigos que tenham sido publicados por este autor em jornais ou que simplesmente sejam a expressão do desconforto causado por opiniões com estatuto de produção científica no campo da teoria social, da educação, da sociologia, da história, da economia.Visa também publicizar produção acadêmica resultante de pesquisa orientada em cursos já realizados ou em andamento.
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