“Daí o tom de raiva,
legítima raiva, que envolve o meu
discurso quando me refiro às injustiças a que são submetidos os esfarrapados do
mundo. Daí o meu nenhum interesse de, não importa que ordem, assumir um ar de
observador imparcial, objetivo,seguro dos fatos e dos acontecimentos. Em tempo
algum pude ser um observador ‘acizentadamente’ imparcial, o que, porém, jamais
me afastou de uma posição rigorosamente ética (Paulo Freire).”
A
pós-modernidade tem se deparado com um
tipo de discurso (reativo) se legitimando ou buscando construir legitimidade
principalmente a partir da década de 1990. Esse discurso ou vinha no corpo
mesmo ou na esteira de uma outra concepção
que afirmava o fim da história ou o fim das ideologias.
Credenciado a partir do fim da
União Soviética (URSS) e das esperanças (?) de um socialismo centrado na
garantia do inalienável direito à felicidade humana - em oposição ao socialismo
real - estava naturalmente determinado a conduzir, em uma visão rasa de
determinismo linear, o ser humano, até que enfim, ao progresso e à felicidade.
No tocante às relações
internacionais as nações atrasadas deveriam apenas seguir o exemplo e o modelo,
agora, redentoramente ofertado pela cartilha infalível dos países ricos. O resto era questão de
tempo e o mundo, segundo esse discurso, estava pronto para ser feliz e usufruir
as conquistas tecnológicas do capitalismo humanizado.
Essa visão de mundo, que como
discurso se manifesta em um conjunto de práticas e ações que vão de noticiários
comprometidos com a “veracidade dos fatos” às falas de personagens televisivos
e cinematográficos construiu, ao longo de sua experiência em formatar e
normatizar nossa opinião, uma série de desdobramentos ou de discursos transversais
que cumprem o mesmo destino: fazer-nos acreditar que existe uma forma
apenas e apenas uma forma de ver o
mundo, porque esta é a forma ou a maneira certa, incontestável e inconfundível.
Esse paradigma, esse discurso
expressão do pensamento único e da naturalização de quase todas as situações
sociais - que seria um equivalente ou desdobramento dos fenômenos naturais e
não humanos - foi, em toda sua potência, o genitor do discurso da técnica,
investido da falácia da neutralidade.
Hoje, nestes tempos de modernidade
tardia, é essa a derradeira carta na manga do pensamento único, da versão
transformada em realidade, da opinião transformada em verdade e de uma forma de
verdade transformada em fato. É este o papel do discurso da técnica: colocar um
ponto final na discussão social, política, cultural, econômica e humana. Há um
jeito de se fazer às coisas e um jeito apenas, em que a condução técnica da
“coisa” - principalmente da coisa pública - tem caráter de neutralidade.
Ser técnico, analisar
tecnicamente é ser neutro e ponto final. É ser responsável com a “natureza das
coisas”. Coisas que, naturalmente, têm cada uma o seu lugar, cada uma sua
evolução.
Pois é esse discurso da
neutralidade técnica travestida de eficácia para o bem comum, imparcial e
infalível, que conduz nossa compreensão social pelos caminhos da
superficialidade.
Para além das disputas
teóricas iluministas e pós-iluministas, para além do reducionismo maniqueísta
de nossa viciada percepção social, devemos incontinente centrar
toda a força da racionalidade histórica em sua percepção. Parece sensatamente aceitável que é tarefa de
todas as pessoas preocupadas em tornar o Bem Comum um lugar de justiça e de
garantia do inalienável direito à felicidade humana.
Não é possível aceitar que o
velho capitalismo (em que tudo o que se produz destina-se às relações de
mercado, que não tem por princípio atender às necessidades humanas) se utilize,
incontestavelmente de um discurso que tem como principal tarefa nos deixar
calados e estáticos.
Calados, para um falso mundo
técnico e imparcial, a-histórico, que naturaliza a pobreza, a desgraça humana,
a violência, a dor, a infelicidade.
Estáticos, para um mundo que,
vale dizer, assiste a derrota das ideologias pela ideologia da neutralidade
técnica.
Paulo
César Machado
Professor
de História e Supervisor Educacional
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